quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Primeira visita a um colégio

Terça-feira passada, dia 3 de novembro, acompanhei minha coordenadora e meus colegas bolsistas do MEXT Teacher Training em uma visita ao colégio Komaba, o qual pertence à Universidade de Tsukuba, porém está localizado em Tóquio, nas proximidades de Shibuya. É um colégio somente para meninos e funciona do sexto ano do Ensino Fundamental ao terceiro do Médio. (Observação: não sei se a Universidade de Tsukuba oferece colégio para meninas e/ou misto, pretendo me informar sobre.)

Eu não sabia o que eu iria fazer lá, apenas fui informada de que iríamos visitar. Imaginei uma visita rápida, com as atenções voltadas a nós (estrangeiros), com possíveis conversas com professores locais e talvez alguma ensaiada apresentação nossa em japonês (estou craque em fazer isso já). Chego ao colégio e me deparo com uma feira de conhecimentos. Logo penso: "Vou ver toda a tecnologia e as melhores performances que o Japão pode oferecer em uma escola." Por minutos, enquanto atravessava o portão e o primeiro pátio, pensava em robôs, sensores, etc.

Sabem o que vi?! Vamos à lista:

- Cartazes: Sim, cartazes! Aquela cartolina básica, pintada com lápis de cor e canetinha, com informações que provavelmente muita gente já sabe, mas que para aqueles alunos representava aquilo que estavam aprendendo. Era simples, mas era completo. Do pouquíssimo que entendo de japonês, dava para perceber que não tinha trabalho mal feito, "empurrado com a barriga", tudo tinha introdução, desenvolvimento e conclusão, além das fontes dos dados.
- Trabalhos manuais: Foi uma das partes que mais gostei. A arte sempre me encantou! Tinha desenhos à lápis, à caneta, recortes, pequenas esculturas, origamis, pinturas... Alguns mais detalhados, digamos perfeitos, outros nem tanto, mas com notável esforço empregado.
- Maquetes: toda feira tem a clássica maquete do vulcão! No Japão não é diferente! Tinha a do vulcão, a do trem, a da flora e fauna, a dos deslizamentos... Com isopor, argila, tinta e muito capricho! <3
- Seres vivos: quando possível e permitido, por que não explicar certos bichinhos e plantas?!
- Reações químicas: outro clássico das feiras de conhecimento, com coisas que explodem, mudam de cor, fedem, somem... 
- Música: foi maravilhoso o show! Os meninos da filarmônica arrebentaram!

Bem, se tudo foi como em muitas feiras que estamos habituados a ver nas nossas escolas brasileiras, por que escrevo este texto? Vamos às diferenças:

- Não vi uma confusão entre alunos. Ninguém brigou com ninguém por "ter dado a hora de revezar para ir embora", por "não ter espaço e material suficiente", pelo "professor não ter chegado ainda", e por aí vai...
- Não vi um lixo no chão. Ninguém se aproveitou de um grande evento para dar uma de relaxado e deixar que os organizadores limpassem.
- Não vi professores desesperados, afobados, tendo que "salvar trabalhos" na última hora, para ter algum reconhecimento.
- Não vi um sinal de escola depredada. E não pensem vocês que tudo é novo e sempre reposto, não! Tem móveis e equipamentos visivelmente antigos, gastos com o tempo e o uso, mas que ainda são muito úteis e ninguém deu a desculpa de "estar velho demais, depois a escola compra outro" para quebrar, rabiscar e estragar. O mesmo vale para as paredes, escadas, portas, maçanetas, etc.
- Não vi gente impaciente. Todo mundo esperou a vez de todo mundo, fosse na fila da comida, da bebida, das apresentações...


Eu vi boa vontade. Alunos que realmente querem estudar. Professores que provavelmente (com certeza, vai...) são valorizados e conseguem realizar excelente trabalho. Vi coisas simples, não inéditas, mas esmiuçadas ao máximo para que realmente houvesse absorção do conhecimento, e não apenas uma grande tentativa de performance daquilo que não se aprendeu apenas para atrair público. Vi disciplina, sem terror nem demagogia.

Caros colegas, não tem mistério. O giz ainda existe aqui! A profundidade dos assuntos é que faz a diferença.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um mês e muitas histórias

Hoje faz um mês que estou no Japão. Um mês de muitas fotos e explicações diversas enviadas ao Brasil, diariamente; um mês comprando comida sem saber exatamente o que é; um mês sentindo a maior sensação de segurança, como nunca.

Este blog nasceu das ideias de duas queridas: Patrícia, professora de Biologia que trabalha comigo; e Natália, amiga de uma vida inteira. Patrícia, na verdade, sugeriu um livro. Quem sabe, um dia...

Bem, para início de conversa vamos ao...início! A pergunta que muitos japoneses (e brasileiros) fazem para mim: "Por que você escolheu o Japão?". A resposta é simples: "O Japão me escolheu."

Explico:

Tudo começou em fevereiro, com um e-mail enviado pela minha diretora de uma das escolas estaduais em que trabalho, no estado do Rio de Janeiro, comunicando a notícia que estava na página da Secretaria de Estado de Educação. Nesta notícia havia a informação de que professores da rede poderiam se inscrever em processo seletivo para concorrer a uma bolsa de estudos no Japão, por um ano e meio. Pensei: "Por que não? Seria uma ótima oportunidade e não tenho nada que me obrigue a ficar no Brasil nesse período."

NUNCA imaginei vir ao Japão, nem estudar japonês. Não sou "chegada" em mangás, nem em desenhos animados japoneses, nem música japonesa, nem videogame. No máximo, na comida (falarei muito sobre ela ainda, aguardem...). Não estou afirmando que essas coisas são ruins, apenas não fazem parte do meu universo. Mas sempre imaginei como seria uma escola japonesa. E o e-mail recebido despertou mais ainda a curiosidade.

Resolvi, então, fazer o processo seletivo junto ao Centro Cultural do Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro. Passei por etapas de análise de projeto, exames médicos, prova de inglês, currículo, etc. Quem acompanhou minha rotina naqueles meses do processo seletivo sabe o quanto foi suado e almejado! Chegou junho, passei. E agora? Corri para tirar visto, tirar licença (talvez um dia, com muita delicadeza, ainda reserve meu precioso tempo para falar sobre esta parte), arrumar malas e tentar estudar mais japonês (que decidi começar a aprender em março, muito antes do resultado, por precaução) e preparar a cabeça para conceber a ideia de ficar um ano longe de família, amigos, namorado, cachorro, casa, alunos, etc.

As reações foram das mais variadas, mas todas com um tom de incentivo. A primeira, logo quando li o e-mail lá em fevereiro, foi a da minha mãe: "Tentar bolsa pro Japão, vai comer o que lá?" Mães... As muitas outras se expressaram em palavras, cartas, presentes, abraços, beijos, festas e homenagens. Sem todo esse combustível de calor humano, não aguentaria vir e nem permanecer aqui (obrigada também à internet, que facilita muito a vida!).

Espero poder compartilhar o que sinto e vivo aqui. Bem-vindos ao meu Japão!

Irashaimase!