Minha geração ainda carrega resquícios de um mundo que não
era tão globalizado há algumas décadas. Recordo-me dos tempos de criança,
quando era raríssimo conhecer alguém que tivesse feito uma viagem ao exterior e
mais raro ainda era ter a oportunidade de ganhar um presente vindo de fora do
país.
Pois bem, as razões econômicas da época justificavam este
comportamento, mas o tempo passou. O avanço da comunicação e do comércio,
atrelados ao aumento da produção em diversos países criou uma espécie de
homogeneização do consumo e, em parte, da cultura. Não vou me estender na
discussão geográfica da coisa (para isso tenho outro blog, temporariamente
cancelado), vamos então entender o título deste post:
“Ah, mas lá...”
1) “Lá você só vai andar de trem-bala.”
2) “Lá você só vai comer sushi, sashimi, temaki e hot.”
3) “Lá você vai ter a internet mais rápida.”
4) “Lá você, professora, não vai precisar se curvar diante
do imperador.”
5) “Lá você vai comprar um monte de coisas mais baratas que
aqui.”
Ouvi essas e muitas outras. Como essas foram as mais
recorrentes, é hora de esclarecer:
1)
O famoso trem-bala (Shinkansen - しんかんせん) é, de fato, uma excelente opção para viajar no Japão,
não só pela rapidez como pela experiência (a qual ainda não tive). Porém, a
brincadeira não sai barata. Tomemos como exemplo o percurso Tsukuba (cidade em
que moro)-Osaka: a viagem noturna de ônibus leva aproximadamente 8 horas e
custa cerca de 10 mil ienes (aproximadamente 320 reais, ida e volta). A mesma
viagem, no Shinkansen (considerando um prévio deslocamento a Tóquio para poder
embarcar) sai pelo DOBRO DO PREÇO (por 3 horas)! Então, não, as pessoas no
Japão não andam de trem-bala o tempo todo.
2)
A culinária japonesa é muito rica em variedade
de peixes e frutos do mar. Mas isso não significa que sushis e sashimis custem
pouco. Depende muito de onde é comprado, se foi feito na hora ou não, etc. Além
disso, pratos como ramen, gyumeshi, miso soup, nato, entre outros, fazem parte
do cotidiano japonês. Então, esqueçam a ideia de que entrar no Japão é entrar
em um restaurante japonês no Brasil. Não é.
3)
A
internet! Não posso reclamar dos meus acessos. Uso um plano de 3G no celular,
da NTT e, no dormitório, tenho uma internet que chega ao computador através de
um lindo cabo azul que atravessa o quarto. Ambos atendem bem minhas
necessidades, mas isso não significa que eu consiga ver muitos vídeos no 3G,
por exemplo, ou que um vídeo longo nunca irá travar no computador. Existe a
internet super rápida aqui? Existe, lógico! Mas para tê-la, basta pagá-la
(entendeu?).
4)
Uma das publicações mais compartilhadas por
professores no Brasil, a do imperador! Parem, por favor. Todo mundo aqui se
curva, não somente diante do imperador, como diante de qualquer autoridade. Até
mesmo se a pessoa for considerada subordinada a você, você pode se curvar (um
pouco menos) a ela também. O que pode se afirmar é que os professores são muito
respeitados, isso com certeza. Algumas pessoas japonesas com as quais tive
oportunidade de conversar até aumentaram a formalidade da conversa após
descobrir que sou professora. Mas ter esta autoridade não significa anular o
respeito ao imperador.
(Observação relacionada ao tópico: dia 23
de dezembro é aniversário do Imperador e, portanto, feriado nacional! E não, 25
de dezembro não é feriado. Não discutam.)
5)
O custo de vida no Japão é alto. No Brasil,
temos a tendência em achar que tudo o que se compra fora do país vai ser mais
barato. Isso pode funcionar para muitos produtos nos EUA, mas não aqui. Não vou
generalizar. Lógico que o brinquedo nerd, que veio da série ou do vídeo-game nerd,
lançado nas lojas de nerd do Japão e vendido no mundo todo, vai ser mais barato
aqui. Mas as coisas mais básicas e necessárias, como roupas, sapatos, material
escolar, etc, são caros. Obviamente, se ganha para isso. Mas é muito fácil
perder o controle, até porque o consumismo aqui é absurdo. Consumir é esporte.
Então se alguém ainda se engana com meu
retorno no estilo “muambeira”, sinto muito pela decepção que posso ter causado.
Livremo-nos, aos poucos, dos boatos de uma época com menos
comunicação, cujos resquícios ainda perduram. Incluo-me neste grupo. Mas
aprendo, a cada dia, a desmistificar estas coisas.