sexta-feira, 1 de abril de 2016

Entendendo Emojis

Olá, pessoal! Hoje vou falar um pouco sobre aquele teclado cheio de desenhos que temos no celular, os emojis.

Desde as primeiras semanas aqui no Japão, passei a ter momentos de surpresa ao entender o significado de alguns emojis, já que a criação destes caracteres é de origem japonesa.

Sendo assim, resolvi escolher alguns deles para explicar o significado. Se você tem dúvida sobre algum que não esteja aqui, entre na página do Emojipedia (em inglês): http://emojipedia.org/

Vamos aos emojis!

Este gesto significa "não" (Dame), na linguagem corporal japonesa. Aqui não existe o "não" com indicador levantado, igual fazemos no Brasil. Eles sempre cruzam os braços desta forma.

Esta mochila é chamada de "randoseru" e é uma tradição no Japão. Usada durante todo o ensino fundamental, é feita de couro, é cara e normalmente é um presente dos avós. Saiba mais em: http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/criancas-japonesas-usam-sempre-mochilas-iguais-que-duram-anos/4805821/

"Mizaru, Kikazaru, Iwazaru" são os três macaquinhos que representam não olhar, não escutar e não falar nada que seja do mal. São muito famosos na cidade de Nikko.

Este cão é da raça Akita, muito comum no Japão, sendo muito famosa pelo filme "Para sempre ao seu lado".

Esta é a sakura, a flor da cerejeira, um dos símbolos mais famosos que representam o Japão.

Esta onda é parte do quadro (feito em xilogravura) chamado "A grande onda de Kanagawa", feito entre 1830 e 1833 pelo artista Katsushika Hokusai.

Este melão é bem diferente dos que estamos acostumados a consumir no Brasil. Os japoneses adoram esta fruta, mas só quem tem muito dinheiro consegue comprar, pois pode custar entre 300 e 500 reais, dependendo da época!

Aqui temos três tipos de comida. O primeiro é o tradicional Ramen, que conhecemos como miojo, mas que aqui é preparado e servido de maneira diferente,  na maioria das vezes. O segundo não especifica a comida que tem dentro, mas parece ser a Missoshiru, que é a tradicional sopa de soja com legumes e algas, consumida em quase todas as refeições diárias dos japoneses. O terceiro não é um biscoito doce, como sempre pensei! É kamaboko, uma massa de peixe que se come fatiada, mergulhada nas sopas. Essa em formato espiral, como no emoji, recebe o nome de Narutomaki, por lembrar os redemoinhos na cidade de Naruto.

Agora quatro tipos de comida: o primeiro é Bento, que não é comida, mas sim a marmita que os japoneses carregam pro trabalho ou escola com muito orgulho, todos os dias. O segundo, que eu sempre achava que era arroz e feijão, é arroz com Kare, o famoso curry, que normalmente acompanha algum tipo de carne. O terceiro é Onigiri, que nada mais é do que arroz recheado com alguma coisa (peixe, frango, legumes, etc) e coberto com alga (nori). O quarto é apenas arroz cozido (Gohan), o alimento mais consumido e apreciado no Japão, puro, simples e sem tempero.

Mais comida! O primeiro é Senbei, biscoito de arroz envolto em alga. O segundo é Oden, um espetinho salgado que normalmente leva massa de peixe, nabo e ovo. O terceiro é Dango, um espetinho doce feito de goma de arroz (chamada de Mochi) que pode ter cores variadas de acordo com os ingredientes usados (o verde é de chá verde e o rosa ainda não identifiquei...hahaha...mas adoro!)


Agora, bebidas. O primeiro é uma garrafa e um potinho de beber Sake (Saquê, no Brasil). O segundo é chá verde (aqui chamado de Matcha).

Torre de Tóquio ou Tokyo Tower, como preferirem. NÃO É A TORRE EIFFEL! Cansei de ver gente indo a Paris e colocando este emoji nas fotos...

Monte Fuji, o maior do Japão, é um vulcão com mais de 3700m de altitude.

O primeiro é Tsukimi, celebração de observar a lua no outono, com as oferendas de dango e grama Susuki. O segundo, pra quem nunca prestou atenção às aulas de Geografia (cof, cof, cof...) é um mapa do Japão!

Modelo de castelo na tradicional arquitetura japonesa.

Correios do Japão. Este símbolo vermelho representa o katakana テ (te), que é uma das sílabas da palavra "tegami", que significa "carta".

Torii, o tradicional portal dos templos xintoístas.

O primeiro representa as bandeiras de carpa, erguidas no dia das crianças (originalmente dia dos meninos), Kodomo no Hi, que é em 5 de maio. As carpas representam a força e a coragem para alcançar objetivos, pois há uma lenda em que uma carpa nadou contra a corrente e conseguiu se transformar em um dragão. O segundo representa as bonecas do dia das meninas, ou Hina Matsuri, comemorado em 3 de março.

Maru (O) e Batsu (X) são os símbolos que representam certo e errado, respectivamente. Em uma prova, por exemplo, ver um círculo ao lado da resposta significa que ela está correta.

O último símbolo que escolhi para esta postagem é muito utilizado nos mapas turísticos e representa as saunas públicas, chamadas de Onsen.

Espero que tenham gostado de aprender um pouco mais sobre o Japão com esta forma moderna e divertida de se expressar!

Até breve! Matane...またね

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Pelos extremos, um brinde a Akihabara!

Uma das maiores concentrações populacionais em zona urbana do mundo carrega consigo uma enorme solidão. Esperando uma amiga, na estação de Akihabara, percebi o quanto aquele volume, aquela massa humana transeunte estava mergulhada em seu mundo virtual, como se os celulares os levassem para passear. Ao mesmo tempo, ninguém perde a atenção: cada gota do mar de gente sequer encosta-se a outra, o fluxo parece ser programado. É natural, é Japão. Ande pelo lado esquerdo e não será atingido.

O silêncio das vozes oferece lugar aos passos apressados, às máquinas de entretenimento (pachinkos, os vícios do azar no Japão), às saudações dos lojistas ("Irashaimaseeeeeee" = "Bem-vindo!") e à querida MPB que toca dentro da maioria das lojas. Gostaria de perguntar a cada japonês se sabe de onde vem esse estilo musical. Pena que eles são muitos.

As luzes ofuscantes de Akihabara iluminam o caminho, mas ofuscam as ideias. Homogeneízam os apelos do consumismo a ponto de culminar numa mistura de preguiça com enjôo de entrar nas lojas. Para mim, ao menos.

Hoje serei breve, como breve fica minha serenidade em Akihabara. Este caos civilizado traz consigo a certeza de estar pisando em Tóquio. E isso é sensacional!


Kanpai!


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

日本語

Olá queridos leitores! Faltando quatro dias para acabar meu curso intensivo de língua japonesa, hoje quero explicar para vocês um pouco sobre a mesma. Alguns que acompanham o blog já a dominam, mas a maioria não. Senti então necessidade de escrever este texto devido a perguntas e comentários feitos nos últimos meses sobre o assunto.

A primeira coisa a se esclarecer é: japonês não é a mesma coisa que chinês! O idioma chinês utiliza muitos caracteres em comum com o japonês. Sendo assim, vamos à estrutura básica da língua: os símbolos.

A língua japonesa é dividida em três grupos de símbolos. Os dois primeiros são conjuntos de sílabas, chamados Hiragana e Katakana. O terceiro grupo, proveniente da China, é o Kanji (o responsável pela confusão na cabeça dos brasileiros!).

O Hiragana serve para escrever palavras japonesas em geral, com sílabas. Por exemplo, “Japão” escrito em Hiragana fica assim: にほん, onde é NI e ほん é HON = NIHON.

O Katakana serve para escrever palavras de origem estrangeira que entraram na língua japonesa, ou simplesmente nomes estrangeiros. Exemplos: a) パーティ, onde パー é PAA e ティ é TI = PAATI = PARTY, que, no inglês, significa “festa”. B) アナルイザ, onde アナ = ANA ルイザ = RUIZA = ANA LUÍSA, ou seja, eu!

Até aí, o japonês não parece ser tão complicado. Surgem, porém, os kanjis. O idioma chinês utiliza apenas kanjis, então é normal que um adulto chinês domine cerca de oito mil kanjis sem problemas (meu professor, nascido e criado em Taiwan, que disse isso!). O japonês utiliza APENAS uns dois mil para uso diário, coisa fácil, hehe...

O que é um kanji? Um símbolo que expressa uma ideia. Ele pode aparecer misturado a outros kanjis para expressar outra ideia ou pode aparecer misturado ao Hiragana para formar verbos e adjetivos, por exemplo, além de poder expressar numerais. Dependendo de como ele apareça, sozinho ou não, a maneira com a qual é pronunciado pode variar. Complicou? Quer que desenhe? É pra já!

   O kanji significa “acima” e é pronunciado como “uê”. O kanji significa “mão” e é pronunciado como “te”. Porém, , “mão acima”, significa habilidoso e é pronunciado como “djôozu”. E se eu quiser escrever em Hiragana, caso esqueça o kanji, posso? Pode! Passa a ser じょず.

Para terminar, esclareço outra dúvida importante. Os teclados dos computadores não são maiores por causa disso! A pessoa digita o som que é correspondente nas nossas letras (que eles chamam de Romaji) e automaticamente o computador converte para o japonês. Se a pessoa quiser trocar uma palavra em Hiragana para Kanji, o teclado tem atalhos para isso. Eu, que uso um computador no padrão brasileiro, recorro a sites específicos para converter as palavras.

Quase me esqueço de explicar o que é, afinal, o título do texto de hoje! 日本 é a mesma coisa que にほん que, como dito, lê-se NIHON e significa Japão. é lido como “go”, em Hiragana, , que significa idioma. 日本語 = NIHONGO = língua japonesa!




またね。(Matane!)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Japão surpreendente (びっくりした日本)

Hoje, 18/01/2016, fiz minha primeira apresentação de japonês fora da sala de aula, mais especificamente em um dos auditórios centrais da Universidade de Tsukuba. Não deu nem tempo de chegar o frio na barriga, pois eu achei que fosse ser uma típica apresentação de painéis, onde apenas os curiosos se aproximam do seu painel para te ouvir. Mas não, como não eram muitos painéis, todos os espectadores (cerca de 30) assistiram um a um, num silêncio japonês indefectível. E adivinhem quem foi a primeira a apresentar?! Por isso, não deu tempo de ficar nervosa.

Apresentações à parte, gostaria de enfocar no tema do evento: algo que tenha te surpreendido no Japão. São tantas as coisas que me surpreendem aqui diariamente, que já estou me acostumando com esse outro lado do mundo. Resolvi então fazer uma lista de coisas curiosas que existem aqui, algumas delas estavam nas apresentações de hoje, outras não:

- A quantidade de embalagens: você ganha, por exemplo, uma caixa de biscoitos como lembrança de um lugar que um amigo seu tenha ido. Dentro do embrulho de papel vem a caixa de papel; dentro desta vem uma embalagem plástica única; dentro desta outra, vem uma bandeja plástica, sobre a qual estão os biscoitos, embalados em plásticos menores, UM A UM! É muita geração de lixo nas ilhas nipônicas. Lembrando que isso não se aplica só aos biscoitos.

- O costume de carregar a própria toalha: não há papel toalha nos banheiros, nem nos dos shoppings mais chiques. Pode haver um secador eletrônico, mas nem sempre. Cada um carrega sua toalhinha na bolsa. Portanto, nos banheiros públicos, menos lixo é gerado.

- As saunas: No Japão, são comuns as saunas públicas (Onsen), as quais são divididas em ala masculina e feminina. É preciso tirar a roupa toda para poder entrar e tomar banho, no vestiário, antes de ficar de molho no ofurô. Pessoas tatuadas não são bem-vindas, mas em algumas saunas são oferecidos adesivos para cobrir as tatuagens. (observação: tatuagens no Japão são normalmente associadas à máfia japonesa, Yakusa). E lá na sauna, os peladões e peladonas batem papo por horas (dizem que conversam mais do que nos bares, não fui em sauna para conferir!). Mas o detalhe mais curioso é: se, por exemplo, um pai estiver com sua filha de oito anos, ela o acompanha na ala masculina e está tudo bem. Aposto que no Brasil isso seria um escândalo.  

- A forma de cumprimentar: apenas um aceno de cabeça é suficiente. Se for alguém considerado superior a você (um professor, por exemplo) curve-se um pouco mais. Acredito que isso seja mundialmente conhecido, mas o curioso fato é que estrangeiros que vêm residir no Japão acostumam-se tanto com isso que acabam por levar o costume aos seus círculos de convívio, tirando das cenas cotidianas os abraços, beijos e tapinhas nas costas.

- As máscaras: muitas pessoas pensam que o uso das máscaras aqui no Japão se dá por conta da poluição, mas este não é o real motivo. A questão é proteger a saúde, própria e dos outros. Grávidas, por exemplo, costumam usar para evitar algum contágio de algo que possa ser perigoso para elas. Pessoas resfriadas, gripadas ou alérgicas costumam usar para não contagiar ninguém. É uma questão de educação e ninguém é visto como um ser estranho por trabalhar, estudar ou passear de máscara. Eu não gosto, mas já me acostumei tanto que já até apresentei trabalho em sala de aula usando máscara.

- Bandejinha de dinheiro: em qualquer loja ou mercado que se vá, há uma bandejinha no balcão do caixa, para que você coloque o dinheiro na hora de pagar. Até nisso o contato é evitado! Porém, na hora de receber o troco e a notinha, normalmente se recebe em mãos. Como entender?! Só não vale ficar magoado com a falta de contato tátil, pois todos os atendentes de loja são tão educados que dá até vontade de agradecer pela existência deles no mundo! Haha...

Em apenas uma postagem não caberão todas as curiosidades, hoje resolvi escrever apenas as que vieram à mente. A vontade surgiu quando minha amiga comentou, no jantar, que nós estamos conhecendo pouco da cultura japonesa. Rebati: “Não, nós estamos nos acostumando, isso sim.”

E você, leitor, tem alguma curiosidade sobre o Japão? Gostaria de saber por mim? Deixe sua mensagem aqui, ou no Facebook, ou no endereço eletrônico analuisadacosta@hotmail.com


またね!(Matane = Tchau!) 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Para as (suas) férias, a (minha) rotina

Completando hoje meu terceiro mês de Japão, gostaria de registrar algo que pouco exibi nas redes sociais: minha rotina. Por vezes, penso: “Por que publicaria sobre minha rotina, sendo que é tão mais divertido publicar somente os passeios e festejos? Seria muito chato!”. Acredito não estar tão errada assim, porém, comecei a sentir a necessidade de expor a rotina para que vocês, queridos leitores, possam acompanhar melhor minha estada aqui e sanar quaisquer dúvidas, posto que já fui abordada não só com perguntas de interesse positivo, como também com comentários infelizes que põem em dúvida a validade de eu estar aqui. Aproveito, inclusive, para agradecer cada palavra de incentivo e carinho com relação ao blog. Muito obrigada!

E vamos ao que interessa!

As perguntas que mais recebo são sobre o que eu estudo agora, em quantas horas por dia, quantos dias da semana, entre outras. Bem, desde outubro venho estudando apenas a língua japonesa, sobre a qual quero discorrer mais detalhadamente em vindoura postagem. Este curso, que é o intensivo, termina no mês de fevereiro. Ele é diário, de 8:40h às 15h, com intervalo de 50 minutos para almoço e intervalos de 15 minutos nos turnos da manhã e tarde. É composto por nove professores que eu poderia chamar de nove anjos da paciência, sendo eles: Mitani Sensei, Ri Sensei, Ishida Sensei, Sakai Sensei (a coordenadora do curso, mãe de todos), Nakao Sensei, To Sensei, Suzuki Sensei, Kato Sensei e Hori Sensei. Para que as aulas não fiquem repetitivas, Sakai Sensei prepara quinzenalmente uma escala de revezamento de conteúdos e tarefas entre os professores. Sendo assim, as aulas variam em: aulas de kanji (todos os dias, no primeiro horário), gramática, conversação, áudio, escrita, vocabulário e as aulas culturais. Aulas culturais? Sim, vamos a elas: aulas de receita, música, caligrafia japonesa, “quiz” (japonês ama um “quiz”!), entre outras, que mudam com o passar do tempo. Nestas aulas, os professores apresentam algo do Japão e, nas semanas seguintes, os alunos apresentam conteúdo semelhante, porém sobre seus respectivos países, em japonês. A exceção vai para a caligrafia japonesa, justificada pelo próprio nome!

Aí eu volto para casa e meu dia de estudos acabou, certo?! Não! Aí vem o famoso shukudai (dever de casa!). Todos os dias eu tenho ao menos um dever de casa. Caso não haja, não significa que estou à toa, pois não importa qual for o dia, sou obrigada a ler previamente o conteúdo da aula do dia seguinte no livro, para não chegar “crua” na mesma. E as provas? Constantes! A cada três dias, faço teste de kanji, cuja nota não é computada pelos professores, pois é apenas uma prévia da prova. A cada cinco lições de kanji (o que leva aproximadamente entre duas semanas e meia e três semanas), tenho prova. E o restante? A cada quatro lições do livro de gramática e etc. (que dura entre três semanas e um mês), faço cinco provas: gramática, áudio, redação, conversação e interpretação de texto. O enunciado das provas vem em inglês ou japonês? Depende. Os professores conhecem nosso alcance, o que faz com que venham cada vez mais enunciados apenas em japonês. E as notas? Vão muito bem, obrigada!

Friso que além da vida de estudante de japonês, há a vida de dona de casa, sobre a qual julgo ser totalmente descartável qualquer tipo de descrição. Limpeza, arrumação e cozinha só mudam o endereço.

E quando este curso acabar, o que acontece? Férias! E quando estas acabarem, começo minha pesquisa em Educação e, se quiser (e vou querer!), posso dar continuidade ao estudo da língua japonesa, porém não mais no curso intensivo.


Despeço-me com uma frase que ouço todos os dias e que os japoneses amam: Ganbatte Kudasai! がんばってください。 (Esforce-se, por favor!). Sempre e mais.

sábado, 12 de dezembro de 2015

“Ah, mas lá...”

Minha geração ainda carrega resquícios de um mundo que não era tão globalizado há algumas décadas. Recordo-me dos tempos de criança, quando era raríssimo conhecer alguém que tivesse feito uma viagem ao exterior e mais raro ainda era ter a oportunidade de ganhar um presente vindo de fora do país.

Pois bem, as razões econômicas da época justificavam este comportamento, mas o tempo passou. O avanço da comunicação e do comércio, atrelados ao aumento da produção em diversos países criou uma espécie de homogeneização do consumo e, em parte, da cultura. Não vou me estender na discussão geográfica da coisa (para isso tenho outro blog, temporariamente cancelado), vamos então entender o título deste post:

“Ah, mas lá...”

1) “Lá você só vai andar de trem-bala.”
2) “Lá você só vai comer sushi, sashimi, temaki e hot.”
3) “Lá você vai ter a internet mais rápida.”
4) “Lá você, professora, não vai precisar se curvar diante do imperador.”
5) “Lá você vai comprar um monte de coisas mais baratas que aqui.”

Ouvi essas e muitas outras. Como essas foram as mais recorrentes, é hora de esclarecer:

1)      O famoso trem-bala (Shinkansen - しんかんせん) é, de fato, uma excelente opção para viajar no Japão, não só pela rapidez como pela experiência (a qual ainda não tive). Porém, a brincadeira não sai barata. Tomemos como exemplo o percurso Tsukuba (cidade em que moro)-Osaka: a viagem noturna de ônibus leva aproximadamente 8 horas e custa cerca de 10 mil ienes (aproximadamente 320 reais, ida e volta). A mesma viagem, no Shinkansen (considerando um prévio deslocamento a Tóquio para poder embarcar) sai pelo DOBRO DO PREÇO (por 3 horas)! Então, não, as pessoas no Japão não andam de trem-bala o tempo todo.

2)      A culinária japonesa é muito rica em variedade de peixes e frutos do mar. Mas isso não significa que sushis e sashimis custem pouco. Depende muito de onde é comprado, se foi feito na hora ou não, etc. Além disso, pratos como ramen, gyumeshi, miso soup, nato, entre outros, fazem parte do cotidiano japonês. Então, esqueçam a ideia de que entrar no Japão é entrar em um restaurante japonês no Brasil. Não é.

3)       A internet! Não posso reclamar dos meus acessos. Uso um plano de 3G no celular, da NTT e, no dormitório, tenho uma internet que chega ao computador através de um lindo cabo azul que atravessa o quarto. Ambos atendem bem minhas necessidades, mas isso não significa que eu consiga ver muitos vídeos no 3G, por exemplo, ou que um vídeo longo nunca irá travar no computador. Existe a internet super rápida aqui? Existe, lógico! Mas para tê-la, basta pagá-la (entendeu?).

4)      Uma das publicações mais compartilhadas por professores no Brasil, a do imperador! Parem, por favor. Todo mundo aqui se curva, não somente diante do imperador, como diante de qualquer autoridade. Até mesmo se a pessoa for considerada subordinada a você, você pode se curvar (um pouco menos) a ela também. O que pode se afirmar é que os professores são muito respeitados, isso com certeza. Algumas pessoas japonesas com as quais tive oportunidade de conversar até aumentaram a formalidade da conversa após descobrir que sou professora. Mas ter esta autoridade não significa anular o respeito ao imperador.

(Observação relacionada ao tópico: dia 23 de dezembro é aniversário do Imperador e, portanto, feriado nacional! E não, 25 de dezembro não é feriado. Não discutam.)

5)      O custo de vida no Japão é alto. No Brasil, temos a tendência em achar que tudo o que se compra fora do país vai ser mais barato. Isso pode funcionar para muitos produtos nos EUA, mas não aqui. Não vou generalizar. Lógico que o brinquedo nerd, que veio da série ou do vídeo-game nerd, lançado nas lojas de nerd do Japão e vendido no mundo todo, vai ser mais barato aqui. Mas as coisas mais básicas e necessárias, como roupas, sapatos, material escolar, etc, são caros. Obviamente, se ganha para isso. Mas é muito fácil perder o controle, até porque o consumismo aqui é absurdo. Consumir é esporte.

Então se alguém ainda se engana com meu retorno no estilo “muambeira”, sinto muito pela decepção que posso ter causado.


Livremo-nos, aos poucos, dos boatos de uma época com menos comunicação, cujos resquícios ainda perduram. Incluo-me neste grupo. Mas aprendo, a cada dia, a desmistificar estas coisas.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Primeira visita a um colégio

Terça-feira passada, dia 3 de novembro, acompanhei minha coordenadora e meus colegas bolsistas do MEXT Teacher Training em uma visita ao colégio Komaba, o qual pertence à Universidade de Tsukuba, porém está localizado em Tóquio, nas proximidades de Shibuya. É um colégio somente para meninos e funciona do sexto ano do Ensino Fundamental ao terceiro do Médio. (Observação: não sei se a Universidade de Tsukuba oferece colégio para meninas e/ou misto, pretendo me informar sobre.)

Eu não sabia o que eu iria fazer lá, apenas fui informada de que iríamos visitar. Imaginei uma visita rápida, com as atenções voltadas a nós (estrangeiros), com possíveis conversas com professores locais e talvez alguma ensaiada apresentação nossa em japonês (estou craque em fazer isso já). Chego ao colégio e me deparo com uma feira de conhecimentos. Logo penso: "Vou ver toda a tecnologia e as melhores performances que o Japão pode oferecer em uma escola." Por minutos, enquanto atravessava o portão e o primeiro pátio, pensava em robôs, sensores, etc.

Sabem o que vi?! Vamos à lista:

- Cartazes: Sim, cartazes! Aquela cartolina básica, pintada com lápis de cor e canetinha, com informações que provavelmente muita gente já sabe, mas que para aqueles alunos representava aquilo que estavam aprendendo. Era simples, mas era completo. Do pouquíssimo que entendo de japonês, dava para perceber que não tinha trabalho mal feito, "empurrado com a barriga", tudo tinha introdução, desenvolvimento e conclusão, além das fontes dos dados.
- Trabalhos manuais: Foi uma das partes que mais gostei. A arte sempre me encantou! Tinha desenhos à lápis, à caneta, recortes, pequenas esculturas, origamis, pinturas... Alguns mais detalhados, digamos perfeitos, outros nem tanto, mas com notável esforço empregado.
- Maquetes: toda feira tem a clássica maquete do vulcão! No Japão não é diferente! Tinha a do vulcão, a do trem, a da flora e fauna, a dos deslizamentos... Com isopor, argila, tinta e muito capricho! <3
- Seres vivos: quando possível e permitido, por que não explicar certos bichinhos e plantas?!
- Reações químicas: outro clássico das feiras de conhecimento, com coisas que explodem, mudam de cor, fedem, somem... 
- Música: foi maravilhoso o show! Os meninos da filarmônica arrebentaram!

Bem, se tudo foi como em muitas feiras que estamos habituados a ver nas nossas escolas brasileiras, por que escrevo este texto? Vamos às diferenças:

- Não vi uma confusão entre alunos. Ninguém brigou com ninguém por "ter dado a hora de revezar para ir embora", por "não ter espaço e material suficiente", pelo "professor não ter chegado ainda", e por aí vai...
- Não vi um lixo no chão. Ninguém se aproveitou de um grande evento para dar uma de relaxado e deixar que os organizadores limpassem.
- Não vi professores desesperados, afobados, tendo que "salvar trabalhos" na última hora, para ter algum reconhecimento.
- Não vi um sinal de escola depredada. E não pensem vocês que tudo é novo e sempre reposto, não! Tem móveis e equipamentos visivelmente antigos, gastos com o tempo e o uso, mas que ainda são muito úteis e ninguém deu a desculpa de "estar velho demais, depois a escola compra outro" para quebrar, rabiscar e estragar. O mesmo vale para as paredes, escadas, portas, maçanetas, etc.
- Não vi gente impaciente. Todo mundo esperou a vez de todo mundo, fosse na fila da comida, da bebida, das apresentações...


Eu vi boa vontade. Alunos que realmente querem estudar. Professores que provavelmente (com certeza, vai...) são valorizados e conseguem realizar excelente trabalho. Vi coisas simples, não inéditas, mas esmiuçadas ao máximo para que realmente houvesse absorção do conhecimento, e não apenas uma grande tentativa de performance daquilo que não se aprendeu apenas para atrair público. Vi disciplina, sem terror nem demagogia.

Caros colegas, não tem mistério. O giz ainda existe aqui! A profundidade dos assuntos é que faz a diferença.